Sucesso de audiência, palestra do Qualidade de Vida desbrava o luto e suas formas com leveza

O luto, tema tão forte e sensível, nasce da perda – não só de entes queridos, mas de qualquer perda brusca e significativa sofrida por alguém. Quando se perde um emprego, quando se experimenta a sensação de um ninho vazio, quando um trabalhador se aposenta, quando alguém perde sua rotina, um relacionamento. Os exemplos são muitos. Para elaborar sobre o assunto, o Qualidade de Vida convidou Deusa Samú, escritora, psicóloga clínica e hospitalar especialista em Tanatologia pela USP, para palestrar em 30 de abril.

A presença dos associados no auditório da Afubesp foi massiva, o que corrobora o quanto precisamos entender e fazer as pazes com o assunto. Com a realização de transmissão online pelo YouTube, outras mais de 400 pessoas também puderam acompanhar a palestra.

Deusa, que atende diariamente pessoas em sofrimento e estado terminal, focou o diálogo nas formas de luto por morte e avisou: o estado leva um processo de pelo menos um ano para que os sentimentos sejam elaborados até que um dia a dor finalmente amenize. O apoio dos demais precisa ser humana e empática.

“Muito cuidado com o que se fala para alguém em luto. A última coisa que a pessoa precisa nesse momento é ouvir coisas como ‘vai passar’, ou ‘você é forte'”, recomenda. Para a especialista, a única coisa sensata a se dizer é “eu estou aqui pra você”. “Quem está sofrendo precisa é de parceria”, completa.

Relatando suas experiências pessoais sempre com muita leveza e didática, Deusa diz que o tabu sobre a morte brota nas pessoas desde criança pela falta de conversas sinceras no berço familiar. “Antigamente as crianças ficavam à revelia desses assuntos e reféns de crenças passadas de geração para geração que não têm nenhuma sustentação científica” afirma ela. Exemplo disso é usar a morte para criar o medo, desenvolvendo traumas que seguirão até a fase adulta.

Aprender a conversar é essencial, segundo a psicóloga. Muitas das pessoas só revelam segredos e vontades (inclusive como desejam ser veladas) no leito de morte.

As fases do luto

Antigamente falava-se em etapas ou fases do luto. Entretanto a comunidade médica passou a tratar a situação como “sentimentos que irão eclodir”: o primeiro momento é o da surpresa, em que se constata que a morte é irreversível; a barganha, quando o indivíduo faz promessas para que a realidade não seja aquela; a revolta, onde o pensamento é questionar até a Deus o motivo da morte de um ente querido, por exemplo; a depressão, em que a pessoa enlutada se torna apática e começa a tentar administrar seus sentimentos; e, finalmente, a fase da aceitação, quando há busca de ajuda e maior entendimento.

“O que temos para hoje?”

Esse é o pensamento que deve-se ter quando nos achamos sofrendo antecipadamente por algo que nem ao menos aconteceu, muito comum em pessoas ansiosas. Existe um termo para definir tal comportamento: “luto antecipado”. E na mesma linha há o “luto antecipatório”, em que a pessoa conversa sobre a morte de maneira positiva. O luto negado faz parte da vida de muita gente. “Quem nunca disse que está tudo bem quando na verdade está cansada ou destruídas por dentro?”, diz Deusa. “Tudo o que é somatizado uma hora vira doença”, completa. Viver um dia de cada vez é o caminho.

Não ter a oportunidade de se despedir da pessoa falecida por algum motivo (como na pandemia, quando foram proibidos os velórios) é um exemplo do “luto prolongado”, pois não há um desfecho da dor. Não validar o sentimento alheio é o “luto não reconhecido”. O acolhimento é fundamental para que alguém em luto, seja ele qual for, reconheça seus próprios sentimentos.

 

No canal da Afubesp no Youtube (/AfubespTV), os associados podem conferir a palestra na íntegra, entre outros conteúdos. Por ser um assunto que toca a todos, compartilhe com sua família e amigos.

Letícia Cruz – Afubesp
Fotos: Junior Silva

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