Um grupo numeroso de associados saiu de casa na ensolarada quarta-feira, 1º de julho, com uma missão: conhecer um pouco mais sobre os segredos históricos do centro antigo da capital em mais uma atividade do programa Qualidade de Vida. Trata-se de uma região por onde muitos transitam para resolver as burocracias do dia a dia, mas cuja riqueza histórica e arquitetônica frequentemente passa despercebida, assim como os elementos que o tempo e a urbanização não conseguiram apagar.
A atividade começou no Pateo do Collegio, emblemático local onde nasceu a cidade de São Paulo. Apaixonada por história, a guia de turismo Vera Lucia Dias iniciou o passeio com uma dinâmica entre os participantes, explicando o significado dos bairros onde cada um mora.
Os nomes de bairros e cidades carregam identidades, histórias e características geográficas ou culturais, geralmente derivados de raízes indígenas, homenagens a personalidades ou acidentes geográficos. Tucuruvi, por exemplo, significa, em tupi, “gafanhoto verde” (tucura, gafanhoto, e ûvi, verde ou azul). Já Jaçanã faz referência à ave de mesmo nome, originada do termo indígena ñaha’nã, ou “pássaro barulhento”.
De lá, o grupo seguiu a pé por pontos próximos, como a Casa da Imagem de São Paulo e a conhecida Casa de Dona Domitila (1797–1867), mais conhecida como Marquesa de Santos. A personagem histórica costumava promover saraus no endereço, recebendo figuras importantes da época, entre elas Rafael Tobias de Aguiar (1795–1857), o Brigadeiro Tobias, um dos principais líderes militares e políticos da história paulista e também um de seus interesses amorosos. Atualmente, o imóvel restaurado funciona como museu.
Caminhando pelas ruas do “centrão”, também chamaram a atenção as placas com os dizeres “Local de interesse arqueológico”. Durante a reforma recente que substituiu as pedras portuguesas dos calçadões por concreto, foram encontrados sítios com potencial arqueológico e os antigos trilhos de ferro por onde circulavam os bondes da cidade. Parte desses trilhos foi preservada e permanece exposta ao público.
A história do centro da capital também guarda episódios que mais parecem ficção. Um deles envolve a Catedral da Sé. O poeta e dramaturgo de Santo Amaro Paulo Eiró (1836–1871) sofreu uma profunda desilusão amorosa quando sua musa e prima, Cherubina Angélica de Salles, casou-se com outro homem. O amor impossível desencadeou graves problemas de saúde física e mental, e a lenda diz que o escritor morreu de tristeza. Tudo isso, claro, contado por Vera durante o percurso.
Ainda na região da Sé, os colegas visitaram uma estátua em homenagem a Tebas, nome artístico de Joaquim Pinto de Oliveira. Escravizado, foi considerado o primeiro arquiteto negro do Brasil. Ele foi responsável pelas ornamentações do Mosteiro de São Bento, entre outras construções.
Outras curiosidades também surpreenderam os participantes. Ao passar pela Rua Quintino Bocaiuva, o grupo conheceu a primeira loja de sapatos da cidade, a A Fidalga, fundada em 1928, no Edifício Casa das Arcadas.
Vera apresentou ainda uma discreta entrada que abriga o Instituto Geográfico de São Paulo, responsável por preservar importantes documentos sobre a história da cidade. Um detalhe curioso: as portas que guardam o espaço são justamente as antigas portas do Pateo do Collegio.
Em seguida, a caminhada levou o grupo ao Largo São Francisco e à Faculdade de Direito da USP, instalada em um edifício projetado por Ramos de Azevedo. Entusiasmados, os participantes puderam conhecer de perto o espaço onde se formaram alguns dos mais importantes juristas do país.
O passeio terminou com um almoço em grupo no restaurante Cama e Café, cenário de outros encontros marcantes promovidos pelo programa Qualidade de Vida.
Texto: Letícia Cruz/Afubesp
Fotos: Junior Silva