Que cidade é essa pela qual andamos todos os dias, mas cuja história nem sempre nos foi contada por completo? Essa foi a provocação que conduziu a palestra “Vozes da Cidade: quem escreve nossa História?”, ministrada pelo historiador Lindener Pareto, colunista do ICL Notícias, no auditório da Afubesp, em 5 de agosto. Promovido pelo Programa Qualidade de Vida, o encontro convidou os participantes a revisitar São Paulo para além dos monumentos e dos nomes estampados nas ruas, refletindo sobre quem construiu a cidade, quem foi apagado de sua narrativa e por que resgatar essas memórias é também um ato de justiça.
Durante a conversa, Pareto destacou que a História não é um conjunto de fatos imutáveis, mas uma construção permanente. “A cidade fala. Ela conta histórias o tempo todo. A questão é: quem nós escolhemos ouvir?”, provocou o historiador ao abordar a importância da História Pública como ferramenta para aproximar o conhecimento histórico das pessoas e democratizar as memórias coletivas.
A cidade desigual que hoje nos atravessa não nasceu por acaso. Seu centro foi pensado para atender aos interesses da elite cafeeira paulista, inspirado em modelos europeus, mas construído pelo trabalho de pessoas negras escravizadas, cuja contribuição permaneceu invisibilizada por gerações.
Ao caminhar pelo centro antigo de São Paulo, é impossível não notar a presença de nomes consagrados, como o engenheiro e arquiteto Ramos de Azevedo, entre outros construtores imigrantes italianos, responsável por importantes edifícios da capital e muitos outros locais. Mas, por trás dessa paisagem, existem outras trajetórias ocultadas durante séculos, de pessoas tratadas como mestres de obras menores, por exemplo.
Uma delas é a de Joaquim Pinto de Oliveira, o Tebas (1721-1811), mestre de cantaria (arte de talhar pedra bruta) negro escravizado que participou da construção de igrejas e edificações fundamentais para a formação da cidade, inclusive na região da Sé. Seu protagonismo só começou a ganhar reconhecimento graças ao trabalho de pesquisadores que revisitaram documentos e questionaram as versões tradicionais da historiografia.
A herança escravocrata perpetuada
Para Pareto, esse apagamento não aconteceu por acaso. Mesmo após a chamada “abolição”, essa população continuou sendo empurrada para ocupações precarizadas e para os espaços mais marginalizados da cidade, perpetuando desigualdades que ainda marcam o urbanismo paulista.
Essas ausências também aparecem quando observamos quem ocupa os livros, os monumentos e a memória oficial. Ao lado de Tebas, o historiador lembrou a importância de personagens como Luís Gama (1831-1882), homem preto, advogado, ex-escravizado e um dos maiores abolicionistas brasileiros; Abdias do Nascimento (1914-2011), artista, político e referência na luta contra o racismo e na valorização da cultura negra, mostrando que ampliar as narrativas históricas significa reconhecer aqueles que ajudaram a transformar o país, mas foram sistematicamente invisibilizados.
A literatura também ajuda a compreender esse processo. Pareto citou “Quarto de Despejo” (1960), em que a escritora negra Carolina Maria de Jesus (1914-1977) narra o cotidiano na favela do Canindé. Muito mais que um diário, a obra revela como a cidade empurrou a população pobre para suas margens, transformando periferias e favelas em consequência direta de escolhas políticas, econômicas e sociais que atravessam décadas. Ou seja, a antítese de tudo o que era republicano, branco e italiano.
O debate também reforçou que recuperar essas histórias não significa apagar outras, mas ampliar o olhar sobre o passado para compreender melhor o presente. “Quando mudamos as perguntas, mudam também as respostas que a História nos oferece”, destacou Pareto ao defender que memória e patrimônio cultural devem servir como instrumentos de pertencimento, cidadania e reparação.
O tema dialoga com outras atividades promovidas recentemente pelo Programa Qualidade de Vida. A caminhada pelo Centro Histórico de São Paulo, realizada há poucas semanas, permitiu aos colegas percorrer justamente esses espaços que carregam diferentes camadas da memória da cidade.
Ao final da palestra, ficou uma reflexão que ultrapassa os limites geográficos: conhecer a história de uma cidade é também reconhecer as vozes que foram silenciadas. Afinal, entender quem escreveu o passado é um passo importante para decidir, coletivamente, quem ajudará a escrever o futuro.
Confira a palestra na íntegra, no canal AfubespTV, no YouTube.
Fotos: Junior Silva