Sofrimento mental é mais uma consequência do desastre climático no RS

O desastre climático que assola o estado do Rio Grande de Sul está afetando não só a integridade física dos gaúchos, mas traz também o sofrimento mental de todos que foram impactados pelas inundações. Desde o dia 30 de abril, quando o grande volume de chuva fez rios e lagos extrapolarem seus limites, a população se viu obrigada a deixar suas casas submersas pelas águas às pressas. Até o momento, já são 147 mortes confirmadas, 127 desaparecidos, 80 mil desabrigados (em abrigos) e 538 mil desalojados em casas de família ou amigos.

Deixar para trás o próprio lar e das memórias é, em si, é doloroso. Natalina Rosane Gue, funcionária do Santander e diretora do SindBancários, é uma das vítimas das chuvas e teve sua casa em Canoas alagada e hoje está com a família em um apartamento acampada com outras 14 pessoas esperando que o nível das águas baixe. Já as famílias nos abrigos têm passado por muita dificuldade. “Eles (os desabrigados) não têm condições mínimas de viver, tem abrigos com 300 pessoas num pequeno espaço”, relata. Há também denúncias abusos contra mulheres e crianças.

Resgatada do segundo piso de sua casa por voluntários em um barco pequeno, Natalina se preocupa com a situação que encontrará quando puder voltar ao lugar que vivia. “O bem material está lá, a gente não sabe a quantidade de barro que vai achar quando voltar. É o seu lar, o seu cantinho, então eu quero ir para minha casa, quero limpá-la, mas vai ser uma reconstrução muito dolorosa. Não é pela questão material, é pelo lado emocional”, diz. Seu filho, nora, neta e irmão – além dos cachorros – também foram socorridos. Dos seus oito irmãos, seis tiveram as casas comprometidas.

Quem saiu correndo de casa para buscar abrigo em local seguro teve pouco tempo para reunir pertences, dado a rapidez que a água subiu. Segundo a gaúcha, é muito comum ver nas ruas pessoas segurando apenas uma ou duas sacolas plásticas carregando o que sobrou consigo.

A ansiedade para voltar à vida e rotina é geral. “Meu guri está com síndrome do pânico. Tem dor no peito, na cabeça e as pernas. Para conseguir medicação também está muito difícil pela escassez nas farmácias”, conta Natalina.

Falta de alimentos

Há sumiço de itens básicos e de alimentos das gôndolas até mesmo em hipermercados, como é possível ver no registro ao lado. Por isso, há enorme dificuldade em conseguir comida comprando. Todavia, as doações de mantimentos seguem chegando – com necessidade especial para o envio de leite para as crianças.

Falar sobre as consequências tristes das inundações não é fácil para o restante do Brasil, e muito menos para quem sofre na pele. Por isso, Natalina prefere permanecer forte. “Quando mais tu desmoronar, mais vai prejudicar os demais que já não estão tão fortes. Estamos reagindo”.

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Letícia Cruz – Afubesp
Foto: Marinha do Brasil

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