A incógnita do modelo de trabalho híbrido

Executar funções laborais, ora em casa, ora na empresa, é tendência no pós-pandemia. Movimento sindical está atento à questão para orientar trabalhadores

Entre as inúmeras transformações que a pandemia trouxe para o dia a dia das pessoas, uma parece ter chegado para ficar: o teletrabalho, ou modelo híbrido, quando o trabalhador divide a jornada semanal a ser cumprida ora em casa, ora no escritório.

Uma pesquisa realizada pelo Google Cloud entre dezembro de 2020 e janeiro de 2021 mostra que muitas empresas, de variados setores, já definiram a adoção deste formato, que mescla o home office à ida ao local de trabalho, assim que a crise sanitária passar. Um dado interessante é que 59% dos trabalhadores de 33% das empresas que ainda não decidiram como irão atuar, preferem o modelo híbrido. Entre os jovens de 18 a 21 anos, a porcentagem é ainda mais alta: 76%.

Essa flexibilidade parece atrair muito os profissionais, mas é preciso ter muito cuidado para não abrir mão de nenhum direito trabalhista conquistado.

Para a coordenadora da COE (Comissão de Organização dos Empregados) do Santander, dirigente da Afubesp e do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Lucimara Malaquias, é necessário que os atores compreendam os prejuízos e os benefícios desta nova forma de trabalho, pois é um terreno novo para todos os lados.

“Há mais incertezas do que verdades absolutas neste processo, tanto as empresas quanto o movimento sindical ainda estão em estudo das implicações do novo modelo. As empresas apontam para um ganho de produtividade neste regime e uma redução de custo, que tenderia a ser repassada para o trabalhador. É aí que a negociação coletiva ganha ainda mais importância, portanto as categorias que tiverem mais organização terão melhores condições de minimizar os impactos negativos para os trabalhadores”, argumenta.

Tempo de dedicação

A jornada de trabalho é um dos principais objetos de observação neste sentido. É preciso delimitar muito bem como será o controle dela, os equipamentos a serem utilizados – de aparelhos a aplicativos como o Whatsapp Business – a fim de proteger o direito à desconexão, algo que já é um problema real.

De acordo com a advogada e assessora da secretaria de Saúde do Sindicato, Leonor Poço Jakobsen, o aumento da utilização de apps de comunicação fragilizou os limites entre trabalho e descanso. “Os aplicativos de mensagem são uma nova ferramenta profissional que possibilitam estabelecer uma jornada ilimitada de trabalho. O empregado perde sua privacidade, o direito de se relacionar socialmente e o direito de descanso. Imagine esta realidade para uma categoria com uma alta incidência de adoecimento psicológico e emocional. Os bancários se verão destituídos da sua vida privada e terão uma ferramenta de trabalho inserida na vida pessoal, no momento de lazer ou
de descanso.”

A importância da desconexão é tema de debate em outros países, como a França. “É uma garantia mínima para que o trabalhador tenha preservada sua saúde psíquica, que é assegurada por meio do direito ao descanso, que naquele horário ele vai se desligar do trabalho, estar com a família, com os amigos ou simplesmente descansar.”

Desafios

Traduzir esta nova realidade num acordo coletivo que garanta minimamente, o direito ao descanso, à saúde, a uma jornada de trabalho que tenha bem definido início, intervalo e fim é o grande desafio do movimento sindical neste momento, segundo Lucimara.

Mas ainda há mais na mira da garantia de direitos. É preciso também garantir que a responsabilidade com os custos do trabalho seja do empregador.

“Para isso, a luta se dará nos âmbitos da negociação coletiva e jurídico, pois ainda não há legislação adequada que abranja essa nova realidade do mundo do trabalho”, comenta a dirigente, que conclui: “Um campo aberto que é urgente: a luta por regulamentação e a definição de parâmetros mínimos necessários para a preservação dos direitos”.

Érika Soares – Afubesp

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