Selic cai, taxas dos bancos crescem

Mesmo com a queda da taxa básica de juros, as instituições financeiras aumentam custo das operações de crédito aos clientes

Dados do relatório anual sobre crédito, divulgados pelo Banco Central (BC) no dia 29 de janeiro, mostram que, apesar da queda da taxa básica de juros (Selic), os bancos continuam aumentando o custo das operações de crédito para seus clientes.

A Selic caiu de 6,5% para 4,5% ao ano em 2019 –uma retração de 2 pontos percentuais. O spread, que mede a diferença entre a taxa cobrada pelos empréstimos e a taxa paga pelos recursos que capta, aumentou 1,4 ponto percentual, saltando de 17 pontos percentuais para 18,4 pontos percentuais.

A taxa média de juros, considerando os empréstimos a pessoas e empresas, caiu 0,2 ponto percentual, de 23,2% para 23%. Com a queda menor do que a redução da Selic, os bancos ampliaram seus ganhos.

A Federação Brasileira dos Bancos (Febraban) afirma que o aumento do spread se justifica pela mudança no mix da carteira de crédito.

“Os spreads bancários são altos porque os bancos querem ganhar muito mais que o razoável. Eles inventam mil desculpas para sempre manter uma grande margem de lucro”, criticou a presidenta da Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf), Juvandia Moreira.

O economista Gustavo Cavarzan, do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), concorda com a presidenta da Contraf. “Os bancos atribuem os altos spreads no Brasil aos supostos altos custos que afetam o setor. No entanto, vemos o contrário. Selic em queda, inadimplência em queda, despesas administrativas e despesas de pessoal em queda, e ainda assim os spreads seguem aumentando”, disse.

Para ele, isso ocorre devido a concentração do setor. “Apenas cinco bancos controlam praticamente todo o mercado de crédito no Brasil, praticam juros abusivos e assim mantem suas margens de lucro e rentabilidade mesmo em momentos de crise, como a que vemos no país”, ponderou o economista.

Bancos ganham sempre

Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, o crescimento da receita dos bancos também pode ser vista em outros critérios utilizados pelo Banco Central para apurar o custo de crédito.

O Indicador de Custo do Crédito (ICC), utilizada para detalhar como a taxa de juro cobrada do consumidor paga despesas e impostos e gera receita para o banco, ficou praticamente estável em 2019 no período (-0,1 ponto percentual). Como houve a queda no custo de captação, o spread do ICC avançou de 13,7 pontos percentuais para 14,5 pontos percentuais. A alta ocorreu tanto nos empréstimos a pessoas físicas quanto jurídicas.

Neste caso, os bancos alegam que o aumento se deve por necessidade de cobrir eventuais calotes. Porém, a inadimplência acima de 90 dias permaneceu estável em 2,9% na comparação entre dezembro de 2018 e 2019.

Fonte: Contraf

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