A cidade de São Paulo guarda histórias que, em meio aos prédios modernos e às sacadas luxuosas, podem passar despercebidas. Mas ainda é possível encontrar marcas de seu passado industrial em antigas fábricas, construções históricas e vilas operárias. Foi no coração do Belenzinho, na zona leste da capital, que os colegas do Qualidade de Vida conheceram a centenária Vila Maria Zélia, um lugar que une passado e presente.
O passeio ocorreu na quarta-feira (28 de outubro), e o grupo partiu em caminhada do metrô Belém com destino à Vila num percurso de 2,4 quilômetros a pé. Ao longo do caminho, o guia turístico Laércio Cardoso de Carvalho aguçou o olhar dos participantes ao apontar construções antigas, entre as casas térreas e pequenos condomínios de vilas. Algumas delas foram adaptadas e modificadas com o tempo, outras seguem com as características da época em que as fábricas Matarazzo dominavam o bairro.
Inaugurado em 1913, o polo têxtil funcionou por décadas na avenida Celso Garcia, onde o conde Francesco Matarazzo construiu no local uma das primeiras iniciativas de habitações populares do país. Por ali, à época, milhares esperavam o bonde para locomoção, uma vez que a avenida era o tradicional e mais importante via da região antes da construção das marginais.
O destino
Ao fim da descida da Rua Catumbi, o deslumbre: a Vila Maria Zélia, patrimônio tombado pelo Condephaat em 1992 é praticamente uma cidade dentro da cidade. Considerada a primeira vila operária planejada do Brasil, foi construída entre 1912 e 1917 pelo industrial Jorge Street com objetivo de abrigar os trabalhadores da Companhia Nacional de Tecidos de Juta. O nome homenageia sua filha, falecida ainda jovem no ano da inauguração.
A pérola arquitetônica teve inspiração europeia, entre moradias, armazéns, escolas, ambulatório e uma imponente capela. É justamente a igreja uma das primeiras construções que chamam a atenção de quem entra no local.
A atmosfera do lugar, reforçada pelo dia nublado, torna ainda mais impressionante o contraste entre o antigo e o novo. Não à toa, a vila também serviu de cenário para produções cinematográficas, como O Corintiano (1966), de Amácio Mazzaropi, e Saudosa Maloca (2024), cinebiografia inspirada na vida de Adoniran Barbosa. Grupos culturais também ocupam o espaço, que recebe visitantes e se torna especialmente atrativo durante as festas juninas.
Entre as casas e os sobrados coloridos, muitos deles preservados, os moradores dividem espaço com construções centenárias que hoje apresentam sinais de deterioração. Um exemplo são os antigos prédios escolares: duas edificações praticamente idênticas, uma destinada aos meninos e outra às meninas, construídas uma de frente para a outra. Desativadas há décadas, elas hoje têm a vegetação tomando conta de suas estruturas.
A conservação desse patrimônio urbanístico é um dos grandes desafios da Vila Maria Zélia. Embora parte das construções históricas esteja sob responsabilidade do poder público, as casas da vila passaram a ser adquiridas por moradores há décadas. O conjunto guarda não apenas uma arquitetura singular, mas também a memória do trabalho e da vida operária em São Paulo.
Visitar a Vila Maria Zélia é uma oportunidade de redescobrir a cidade, conhecer as histórias que ajudaram a construí-la e refletir sobre a importância de preservar esse legado para as próximas gerações. Apesar de cercada, a entrada para visita nas áreas públicas é livre e gratuita.
Foto: Junior Silva