Debate joga luz sobre a resistência dos trabalhadores durante a ditadura

Pensar o passado para compreender o presente e idealizar o futuro. Esta frase, atribuída ao historiador grego Heródoto, traduz a essência do debate “Ditadura versus Democracia” realizado pela Afubesp na noite da quarta-feira (3/9), no auditório da associação. A mesa foi composta de nomes de qualidade histórica, que viveram o golpe militar, lutaram e combateram as mordaças impostas pelo regime.

Estiveram presentes o membro da Comissão Nacional dos Aposentados (CNAB) Oliver Simioni, o representante sindical Walter Paixão, o sindicalista e membro da Comissão Nacional da Verdade Sebastião Neto, e o coordenador da Rede Brasil Atual, Paulo Salvador, em mesa mediada pelo diretor de formação Silvio Aragusuku.

Abrindo os trabalhos, o presidente da associação Camilo Fernandes agradeceu os presentes e destacou a importância da discussão no atual momento político. “Vários colegas tombaram para que nós pudéssemos nos expressar livremente como hoje”, disse. Em seguida foi veiculado pelo telão um emocionante vídeo que resgata ao histórico do Brasil pré-ditadura militar, durante o regime e pós-ditadura, que pode ser assistido aqui. 

Golpe “não foi mágica”

Os tempos sombrios dos porões da ditadura ainda fazem parte da história de muitos personagens. Um destes nomes, Oliver Simioni lembrou no debate que houve “vários golpes”, e que isso não aconteceu por mágica. “A luta contra a ditadura e contra golpistas vem desde a época de Getúlio”, frisou, lembrando que o ex-presidente criou um arcabouço de leis favoráveis aos trabalhadores e acabou sendo perseguido.

Em seu breve histórico de articulações políticas e conspirações que levaram à queda de João Goulart em 1964, a subida dos militares ao poder e a repressão dos movimentos sindical e estudantil, o dirigente opinou que os militares jogaram “cortina de fumaça” com perseguições para tentar legitimar o golpe.

Oliver destacou ainda que não há limites para traçar protagonistas e coadjuvantes nesta história. “Todos nós demos algo. Um deu o emprego, outro teve de se exilar, teve seus familiares perseguidos, muitos perderam a vida”, sublinhou.

Ontem e hoje

Tal como Oliver, Walter Paixão foi preso pelo regime militar nas dependências do Banespa em 1970 e levado ao DOPS, onde muitos foram mortos em sessões de tortura e interrogação. O ex-sindicalista que militou na oposição à ditadura se prepara para lançar seu livro de memórias onde reflete sobre sua luta sindical, família e política.

Olhando também para o presente, Paixão vê transformações na sociedade de hoje e a de 50 anos atrás que, segundo ele, explicam algumas coisas. “No nosso tempo, gastávamos energia fazendo panfletos e os distribuindo. Os bancários circulavam pelo centro da cidade, se encontravam e articulavam”, pontuou. “Com as redes sociais na internet há uma fragmentação, individualismo. Com isso, não só os partidos e movimentos como a sociedade em geral se desgastaram”, opinou.

Para ele, os problemas atuais são amplos. “O que acontece hoje no país deixa muita gente que militou antigamente perplexo”, afirmou. Segundo Walter, uma das questões é a falta de propostas para que a sociedade abrace e se mobilize. Em sua vivência na luta política, fez um paralelo. “Não estávamos lá somente para derrubar a ditadura, era por um projeto de país democrático”.

Direito à memória

As marcas da repressão continuam a ser estudadas graças a alguns trabalhos. Sebastião Neto, membro do IIEP (Intercâmbio, Informações, Estudos e Pesquisas) e da CNV, se diz persistente em manter o debate vivo No início de sua exposição, mostrou aos participantes um cartaz onde contém os nomes das empresas que colaboraram com a ditadura. “O golpe foi iniciativa do empresariado e operado pelos militares”, frisou.

Divulgado por ele, o livro “Investigação Operária: empresários, militares e pelegos contra os trabalhadores” relata a relação de cooperação das empresas privadas e públicas com a repressão política. “A memória não é luta para viver no passado, e sim para enfrentar o presente”, ressaltou Neto.

Outro trabalho também resgata a resistência dos trabalhadores. Um dos organizadores do projeto de memória do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Paulo Salvador contou que na série de entrevistas com ex-dirigentes sindicais esteve em contato direto com os personagens que fizeram parte de memoráveis episódios do sindicalismo durante o golpe.

Por conta da repressão da época, muitos dirigentes levavam consigo atas e outros documentos – desfalcando os arquivos. “Com este trabalho da comissão, alguns documentos foram recuperados para recompor o acervo”, pontuou.

 

Letícia Cruz, Afubesp

Fotos: Camila de Oliveira

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