Aposentadas, mas responsáveis por todos: precisamos falar sobre quem cuida #8M

No Brasil, as mulheres são maioria entre a população idosa e enfrentam desafios que se estendem para além da aposentadoria. Ao longo da vida, muitas acumulam trabalho de cuidado não remunerado, interrupções na carreira e menor participação no mercado formal, fatores que impactam a renda na aposentadoria e a autonomia financeira. Na velhice, também apresentam maior incidência de doenças crônicas e recorrem com mais frequência a serviços de saúde, o que evidencia desigualdades acumuladas ao longo da vida e levanta o debate sobre quem cuida das mulheres que historicamente cuidaram de suas famílias.

No Mês das Mulheres, os olhares ainda pouco se voltam à experiência das mulheres idosas no Brasil: elas vivem mais do que os homens, acumulam décadas de trabalho de cuidado não remunerado, enfrentam maior vulnerabilidade econômica, mais doenças crônicas e menos oportunidades de autonomia na velhice. Logo, é um assunto mais do que urgente e que pode conversar com a realidade das colegas associadas da Afubesp.

O rosto do envelhecimento da população brasileira é feminino. Segundo dados do último Censo Demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), das 32 milhões de pessoas com 60 anos ou mais no país, cerca de 55,7% são mulheres.

Longevidade que carrega desigualdades

O fenômeno conhecido como “feminização da velhice”, que começou a ser estudado recentemente nos anos 2010, não é apenas demográfico. Ele revela desigualdades acumuladas ao longo da vida. Estudos mostram que o estilo de vida que as mulheres idosas vivem refletem trajetórias profissionais marcadas por interrupções de carreira e um nível de responsabilidade doméstico fora do comum. Fora isso, a solidão é maior nessa fase da vida e pode ser considerada consequência de décadas de preocupação com a criação dos filhos e no bem-estar dos cônjuges e familiares, por vezes com necessidades específicas, abraçando jornadas duplas ou triplas de trabalho.

Historicamente, mulheres são tratadas como cuidadoras naturais da família, e essa função não diminui conforme a idade avança. Mas não é raro ver que muitas idosas não contam com suporte suficiente quando elas próprias precisam de apoio.

Essa realidade ecoa na aposentadoria. Menos tempo de participação no mercado formal e, consequentemente, para a contribuição previdenciária, impacta diretamente o valor dos benefícios recebidos na velhice. Até mesmo às colegas participantes o sistema de previdência complementar, como o Banesprev, vivem em uma insegurança sem precedentes com ataques sistemáticos de patrocinadoras – no caso, o Santander.

Isso nos convida a refletir que as mulheres de todas as idades precisam de políticas públicas que as coloquem como indivíduos que possam ter tempo para qualidade de vida fora do espaço que se dedicam aos mais variados trabalhos. Um exemplo é o fim da escala 6×1, uma pauta pertinente a todos os trabalhadores.

Mais anos de fragilidade

As mulheres brasileiras também têm maior probabilidade de conviver com doenças crônicas e limitações de saúde. Pesquisas oficiais indicam que uma parcela significativa de mulheres idosas avalia sua saúde como “ruim ou muito ruim”, proporção maior do que a observada entre homens da mesma faixa etária, e recorrem com mais frequência a serviços de saúde.

Segundo o médico Egídio Lima Dórea, coordenador do programa 60+ da Universidade de São Paulo (em entrevista ao Jornal da USP, em 2025), maior tempo de vida não significa envelhecer com melhor saúde: fatores biológicos, como a menopausa que aumenta o risco de doenças cardiovasculares e ósseas, somam-se a desigualdades acumuladas ao longo da vida, como menor renda e sobrecarga, o que contribui para maior incidência de doenças crônicas, limitações funcionais e até mesmo saúde mental fragilizada.

Vulnerabilidades

A desigualdade de gênero na velhice não acontece isoladamente: ela se cruza com inúmeros fatores socioeconômicos e geográficos. Mulheres idosas, negras e de baixa renda sofrem mais com a realidade de pouco recurso financeiro, têm mais chance de enfrentar barreiras ao acesso a serviços de saúde e de cuidado de longo prazo.

Boa parte da população idosa segue ocupada no mercado de trabalho informal por pura necessidade financeira com dados do IBGE, novamente, mostrando que cerca de 1 em cada 4 pessoas com mais de 60 anos ainda estava ocupada em 2024. As mulheres idosas participam de forma muito menor nessa ocupação remunerada do que os homens.

Então, em mais um Dia Internacional das Mulheres, vale uma pergunta profunda: quem cuida de quem sempre cuidou?

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