Palavras de Frei Betto encantam participantes do Qualidade de Vida

Olhos, ouvidos e corações abertos. Assim estavam os cerca de 70 participantes do Programa Qualidade de Vida, que realizou na tarde de quarta-feira, dia 27, uma palestra com Frei Betto, reconhecido frade dominicano e escritor mineiro, no auditório azul do Sindicato dos Bancários de São Paulo.

O tema Cristianismo foi abordado com maestria pelo frei, que falou para seu público em forma de conversa, como um contador de histórias. Com a capacidade impressionante de colocar cada um dos presentes dentro das passagens bíblicas citadas, de provocar risos, e até gargalhadas, em diversas ocasiões, trazer novidades sobre um assunto milenar, promover reflexão sobre o que é verdadeiramente ser cristão.

“O aspecto original do Cristianismo é o de amor ao próximo. Ao amar o próximo, ama-se a Deus. E a recíproca não é verdadeira, porque não se ama a Deus se não amar ao próximo”, falou Frei Betto. “Jesus pregava que somos morada de Deus. Se todos enxergassem o outro como templo vivo de Deus não haveria tanta desigualdade no mundo”.


Ao final da palestra, que durou cerca de duas horas, Frei Betto leu um trecho de seu livro “A arte de semear estrelas”, que tem tudo a ver com o momento Rio+20, evento de relevância mundial, realizado no Rio de Janeiro, na semana passada.

Confira abaixo:

Ecologia Interior – Frei Betto

Por um minuto, esquece a poluição do ar e do mar, a química que contamina a terra e envenena os alimentos, e medita: como anda o teu equilíbrio ecobiológico? Tens dialogado com teus órgãos interiores? Acariciado teu coração? Respeitas a delicadeza do teu estômago?Acompanhas mentalmente o teu fluxo sanguíneo?

Teus pensamentos são poluídos? As palavras, ácidas? Os gestos, agressivos? Quantos esgotos fétidos correm em tua alma? Quantos entulhos – mágoas, iras, invejas – se amontoam em teu espírito?

Examina a tua mente. Está despoluída de ambições desmedidas, preguiça intelectual e intenções inconfessáveis? Teus passos sujam o caminho de lama, deixando um rastro de tristeza e desalento? Teu humor intoxica-se de raiva e arrogância? Onde estão as flores do teu bem-querer, os pássaros pousados em teu olhar, as águas cristalinas de tuas palavras? Por que teu temperamento ferve com frequência e expele tanta fuligem pelas chaminés da tua intolerância?

Não desperdices a vida queimando a tua língua com as nódoas de comentários infundados sobre a vida alheia. Preserva o teu ambiente, investe em tua qualidade de vida, purifica o espaço em que transitas. Limpa os teus olhos das ilusões de poder, fama e riqueza, antes que fiques cego e tenhas os passos desviados para a estrada dessinalizada dos rumos da ética. Ela é cheia de buracos e podes enterrar o teu caminho num deles.

Tu és, como eu, um ser frágil, ainda que julgues fortes os semelhantes que merecem a tua reverência. Somos todos finos copos de cristal que se quebram ao menor atrito: uma palavra descuidada, um gesto que machuca, uma desconfiança que perdura.

Graças ao Espírito que molda e anima o teu ser, o copo partido se reconstitui, inteiro, se fores capaz de amar. Primeiro, a ti mesmo, impedindo que a tua subjetividade se afogue em marés negativas. Depois, a teus semelhantes, exercendo a tolerância e o perdão, sem jamais sacrificar o respeito e a justiça.

Livra a tua vida de tantos lixos acumulados. Atira pela janela as caixas que guardam mágoas e tantas fichas de tua contabilidade com os supostos débitos de outrem. Vive cada dia como se fosse a data de teu renascer para o melhor de ti mesmo – e os outros te receberão com dom de amor.

Pratica a difícil arte do silêncio. Abandona as preocupações inúteis, as recordações amargas, as inquietações que transcendem o teu poder. Mergulha no mais íntimo de ti mesmo, em teu oceano de mistério, e descrobre, lá no fundo, o Ser Vivo que funda a tua identidade. Guarda este ensinamento: por vezes é preciso fechar os olhos para ver melhor*.

Acolhe a tua vida como ela é: dádiva involuntária. Não pedistes para nascer e, agora, não desejas morrer. Faz dessa gratuidade uma aventura amorosa. Não sofras por dar valor ao que não merece importância. Trata a todos como igual, ainda que revestidos ilusoriamente de nobreza ou se mostrem carcomidos pela miséria.

Faz da justiça o teu modo de ser e jamais te envergonhes de tua pobreza, de tua falta de conhecimentos ou de poder. Ninguém é mais culto do que o outro. Existem culturas distintas e socialmente complementares. O que seria do erudito sem a arte culinária da cozinheira analfabeta? Tua riqueza e teu poder residem em tua moral e dignidade, que não têm preço e te trazem apreço.

Porém, arma-te de indignação e esperança. Luta para que todos os caminhos sejam aplainados, até que a espécie humanda se descubra como uma só família. E cultiva a convicção de que convergimos todos rumo ao supremo Atrator.

Faz de cada segundo do teu existir uma prece. E terás força para expulsar os vendilhões do templo, operar milagres e disseminar a ternura como plenitude de todos os sentimentos.

Ainda que cercado de adversidades, se preservares a tua ecobiologia interior serás feliz, porque trarás em teu coração tesouros indevassáveis.

Érika Soares – Afubesp
Fotos: Camila de Oliveira

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