Memórias do medo: assaltos e sequestros no trabalho traumatizam bancários
Comunidade científica se empenha no tratamento de pessoas traumatizadas em decorrência da violência. Em alguns casos, indignação com a crueldade dos bancos é maior que com a dos bandidos
Os primeiros registros dos sintomas estão na Ilíada, o clássico de Homero, e na Bíblia, mas há menos de 25 anos a Organização Mundial da Saúde (OMS) o reconheceu como doença, com o título de Post Traumatic Stress Disorder (PTSD), traduzido para o português como Transtorno do Estresse Pós-Traumático (TEPT). Ele já foi, porém, conhecido por muitos nomes: “Neurose de Guerra”, “Síndrome de Abuso Infantil”, “Neurose Traumática”, “Síndrome de Campos de Concentração”, “Síndrome de Sobrevivência”, “Síndrome do Trauma do Estupro”. É, enfim, o mal que ataca quem tem contato com a violência. No Brasil poderia chamar-se também “Mal dos Bancários”. Segundo especialistas, aqui, os grupos mais atingidos pelo TEPT são policiais, bombeiros e… bancários. A convivência com os assaltos, seqüestros, violência e crueldade cada vez maiores dos ladrões os tornam grupo de risco para o transtorno.
Marcos não esquece nenhum detalhe da terça-feira, 18 de dezembro de 2001. “Foi o dia em que eu morri. Hoje, sou um morto-vivo”, diz. Naquele dia ele saiu do trabalho, em uma agência do Bradesco na zona Leste de São Paulo ao meio-dia para levar o pai ao médico. Voltou para casa no final da tarde e a encontrou ocupada pelos bandidos, com a mãe, duas irmãs, o cunhado e dois sobrinhos feitos reféns.
Eles viveriam, então, uma longa noite de terror. Os ladrões sabiam detalhes de seu trabalho e da família que o deixavam perplexo: nomes, idades e hábitos de cada um, quanto dinheiro em moedas e notas de um e cinco reais que ele guardava na agência. — Colabore e nada acontece à sua família; banque o herói e nem os corpos você vai reconhecer –, ameaçou o “chefe”, com um revolver enfiado na boca de seu sobrinho de 5 anos.
Marcos entregou o dinheiro aos ladrões, mas o banco o demitiu por justa causa. Ele processou o banco e ganhou em primeira instância, mas o Bradesco recorreu. O sobrinho até hoje faz terapia e sua mãe caiu em depressão profunda. Depois de perder o emprego, Marcos abandonou o curso de Direito e tem vontade de passar o dia na cama, mas quando deita não consegue conciliar o sono. Dorme, de três a quatro horas por dia, um sono cheio de pesadelos com os bandidos. Nunca mais conseguiu emprego.
“Quem dá trabalho a um tesoureiro demitido por justa causa?”, ele indaga. Agora, só pensa em vingança. Não contra os ladrões: “Eu gostaria de vê-los presos, mas me sinto mais violentado pelo banco”.
Medo de enlouquecer – O Transtorno do Estresse Pós-Traumáticos entre os funcionários de instituições financeiras foi, aliás, o tema da tese de Othon Vieira Neto, professor da Faculdade de Psicologia da FMU e um dos criadores do Foccus – Núcleo de Psicologia Aplicada, que atende a vítimas de violência. Foi em meados dos anos 90 que Vieira Neto teve sua atenção voltada para o transtorno. Funcionário do Banco do Brasil – onde trabalhou de 1977 a 2001 e de quem hoje é consultor para tratamento e prevenção do TEPT –, grande parte de seus pacientes na época eram colegas de agências assaltadas. O psicólogo espantava-se com seu sofrimento.
Percebeu então que os sintomas eram semelhantes aos de uma doença pouco conhecida identificada nos veteranos da Guerra do Vietnã e descrita pela primeira vez como Transtorno do Estresse Pós-Traumático pela Associação Psiquiátrica Americana, em 1980. Na fase mais crítica, o doente tem reações de alarme exageradas, pensamentos intrusivos, afeto instável, tendência a se isolar, estado de excitação crônica, distúrbios no sono e medo de “ficar louco”. Ansiedade e depressão freqüentemente levam a idéias de suicídio.
Renata não se reconhece mais. Três anos atrás, ela era um exemplo de mulher de sucesso. Pessoalmente, uma mulher atraente, um casamento estável e duas filhas adolescentes; profissionalmente, uma carreira de dezoito anos e o cargo de gerente-geral de uma grande agência bancária paulistana.
Coragem? Renata enfrentara oito assaltos ao longo de dezesseis anos. No último, os ladrões a arrastaram pelo pescoço através da agência. Terminado o assalto, ela voltou para sua mesa, como se nada tivesse acontecido.
Competitividade? Em julho de 2001, Renata era a segunda colocada no ranking regional de gerentes do banco. “Vamos buscar o prêmio”, desafiou-a seu superior. Em novembro Renata era a terceira colocada, do ranking nacional. Mas ela já não estava bem.
Em setembro, semanas após um assalto, um erro do departamento jurídico do banco fez com que um oficial de Justiça fosse buscá-la na agência, acompanhado de dois policiais, para uma audiência. A partir daí, passou a ter lapsos de memória, acordar de madrugada, calçar os sapatos, pegar a bolsa para ir para o banco, de camisola.
Num dia de dezembro de 2001, ela saiu de casa para trabalhar e de repente, no meio do caminho, não sabia onde estava nem para onde ia. Desde então já não dirige e, apesar dos calmantes, não sai de casa sozinha. Está em licença para tratamento de saúde. Sabe que logo terá de voltar, mas não consegue entrar em um banco. Nas duas vezes em que se forçou, ficou em pânico. “Às vezes dá vontade de morrer. Eu sou uma má mãe, má mulher, má profissional”, recrimina-se Renata. Não é verdade, mas é como ela se sente.
Terapia breve – Indicados pela FMU, coube a Othon Vieira Neto e sua mulher, Cláudia Maria Sodré Vieira, também psicóloga, professora universitária e pesquisadora do trauma, o acompanhamento e supervisão do atendimento psicológico aos usuários do Centro de Referência e Apoio à Vitima (Cravi), piloto de atendimento às vítimas de violência, lançado pela Secretaria de Justiça do Estado em 1997, mas que não decolou. O atendimento precisava ser feito em apenas quatro sessões, o que levou o casal a desenvolver seu método de terapia breve. Hoje, eles fazem o tratamento do TEPT no máximo em dez sessões. A terapia breve, limitada a doze semanas, é também o método adotado no Grupo Operativo de Resgate da Integridade Psíquica (Gorip), criado em 2002 no Hospital das Clínicas da USP. Tendo como médico-supervisor Eduardo Ferreira Santos, o Gorip especializou-se no atendimento a vítimas de seqüestro.
“A doença pode se manifestar logo após o incidente ou até cinco anos depois. A pessoa passa a sofrer com muito medo, isolamento, depressão, falta de vontade de se divertir ou trabalhar, cansaço extremo, pensamentos recorrentes, distúrbios do sono e pesadelos”, explica Ferreira Santos.
Um novo grupo de pesquisa do TEPT no Brasil, o Programa de Assistência às Vítimas de Violência e Estresse (Prove), está em organização na Unifesp, antiga Escola Paulista de Medicina, pelo psiquiatra Marcelo Feijó de Mello. Além de terapia breve, ele irá realizar uma série de pesquisas, entre as quais uma para determinar o índice de portadores do Transtorno do Estresse Pós-Traumático no país. A transposição de uma pesquisa que o identificou em 10% da população norte-americana indicaria uma taxa entre 5% e 7% no Brasil, mas Feijó de Mello acredita que esse número pode ser bem maior. Até porque, muitas vezes os crimes nem sequer são registrados. “Policiais, bombeiros, bancários e moradores de áreas violentas, como favelas e a periferia, são os grupos mais sujeitos ao transtorno”, explica Feijó de Mello.
Questão de dignidade – O banco emitiu a Comunicação de Acidente do Trabalho (CAT), obrigatória em caso de assalto, e Ademar César, a exemp
fonte: Revista dos Bancários/Seeb SP