ARTIGO DE GLAUCO ARBIX E MAURO ZILBOVICIUS “PREJUÍZOS PÚBLICOS E BENEFÍCIOS PRIVADOS”
A concessão de benefícios estatais sem o compromisso de retorno do setor privado deveria ser página virada em nossa história. Tratar como política de desenvolvimento acordos que apenas definem os deveres do Estado e os direitos das empresas, ou que detalham as atribuições do setor público e mantêm na generalidade a responsabilidade privada, é semear a confusão.
Nos países em que mostraram eficácia, os incentivos foram orientados pela reciprocidade. Metas, objetivos e ações substantivas das empresas constituíram presença obrigatória nos protocolos e acordos selados entre governos e empresas. Os beneficiários de recursos públicos precisaram mostrar-se responsáveis e merecedores desses incentivos, pois a ausência de planejamento e de controle governamental tende a premiar ora as empresas ineficientes, ora aquelas que mudam de rumo de acordo com o humor de suas matrizes criando, mais uma vez, sorrisos privados e prejuízos públicos.
No caso da Ford, está ausente a definição de objetivos de exportação, de ganhos líquidos para o balanço de pagamentos do País, de transferência tecnológica, de centros de desenvolvimento, de capacitação dos fornecedores, de qualificação dos trabalhadores, de relações trabalhistas e salariais sadias.
Sem a perspectiva de constituição de uma rede capilar de indústrias na região, capaz de favorecer processos de aprendizagem organizacional e tecnológica, a operação Ford corre o risco de transformar-se em mais um fabuloso investimento a fundo perdido, uma espécie de “maquiladora” à mexicana, com baixo impacto na industrialização da Bahia e, pior ainda, com alto impacto negativo para o restante do País.
O Congresso e o governo federal precisam tomar as rédeas desse processo, definindo rapidamente claros parâmetros e limites nacionais para a disputa entre os Estados, abrindo uma real discussão sobre políticas industriais e sobre uma reforma tributária que efetivamente contribua para a desconcentração da renda no País.
Três passos imprescindíveis para que os nossos governantes aprendam a desaprender, abandonando de vez os vícios que estão na raiz das disparidades regionais, marcadas secularmente pelas estratégias do desperdício e do mau trato da coisa pública
1.Matéria publicada no Jornal O Estado de S.Paulo, em 09/08/99
2 Glauco Arbix é professor do Departamento de Sociologia da USP e Mauro Zilbovicius, prof. do Departamento de Engenharia de produção da Escola Politécnica da USP, são co-autores e organizadores do livro “De JK a FHC: a Reinvenção dos Carros”)”
fonte: AFUBESP






